Resíduos Orgânicos viram Lanche em Comunidades do Recife (PE)

Tempo de Leitura: 6 minutos

O que você faz com cascas, talos e sobras de comida na sua casa? Sabia que esses alimentos fazem parte dos cerca de 50% dos resíduos sólidos produzidos no Brasil? E você sabia que apenas 1% desse montante é reaproveitado? Imagina que o que poderia ser adubo, gás, energia, e toda essa potencial economia está sendo, literalmente, jogada ao lixo, ou seja, aos aterros sanitários e, consequentemente, à camada de ozônio, através da decomposição que gera o nocivo gás metano, que causa o tão temido aquecimento global. Agora imagina se conseguíssemos utilizar esses resíduos em casa e aproveitar toda a potencialidade nutricional comumente descartada por uma tradição  passada de geração em geração. Essa é a proposta de projetos como o Angu das Artes, da empreendedora social Angélica Nobre, que ensina a moradores de comunidades vulneráveis do Recife a consumirem os alimentos de forma integral, gerando economia, saúde e renda.

O trabalho do Angu das Artes funciona de forma itinerante através de diferentes frentes. Uma delas é através de cursos, palestras e oficinas que vão além do passo-a-passo de receitas: ela provoca mudança de vida ao quebrar paradigmas e levar o conceito de que folhas, raizes, caules e restos não são lixo, mas comida. Segundo Angélica, que é publicitária de formação, especialista em Gestão Ambiental, e estudante de Ciências Sociais, muita gente associa a condição social ao produto, como se o fato de se estar em uma classe menos favorecida fosse um pressuposto para ter que comer qualquer coisa. “Oxente, a gente vai comer resto? Você acha que a gente é o quê?”, ela costuma escutar.

Mudar o comportamento é difícil, mas, pensando nisso, ela desenvolveu algumas técnicas. Quando vai para uma comunidade, por exemplo, ela já leva a receita pronta, com um visual bonito, pede para as pessoas degustarem e dar a opinião, servindo a cada uma, de uma em uma, para se sentirem valorizadas. “Eu tenho que falar a linguagem deles e tenho que chegar no coração deles, tenho que conquistá-los”, diz ela. “Isso que você está comendo é um alimento com o qual eu ganho dinheiro vendendo para pessoas que pagam caro, e ele é feito de uma parte da comida que você joga fora”, conta ela, sobre como é a abordagem durante as oficinas.

Brigadeiro feito com casca de banana em oficina para crianças do Alto José Bonifácio. Foto: arquivo pessoal

Quando ela diz que aquele brigadeiro foi feito com casca de banana, todo mundo se surpreende. Isso por ser uma parte do alimento que não é lixo, mas que a sociedade considera lixo. Um alimento que você tem na sua casa e você joga fora. “Mas a culpa não é sua”, diz ela, “porque ninguém nunca veio aqui e disse a você que isso não é lixo. É cultural. Se você vê sua avó jogando fora, sua mãe jogando fora, você vai jogar também”. A ideia dela é justamente mostrar que isso não é lixo e que com isso dá pra fazer comida gostosa, que dá para vender e ganhar dinheiro, como ela faz.

Coffee-break para moradores da Comunidade de Buriti. Foto: arquivo pessoal

E vende bastante, por sinal. Seja em coffee breaks, para empresários e eventos sustentáveis, ou em feirinhas voltadas para os públicos A e B, como na Praça do Poço da Panela, em Casa Forte, ou no Baobá, nas Graças, ambos em área nobre da Zona Norte da cidade. “As pessoas abraçam mais o conceito quando digo que é uma torta de cascas e talos. Quem tem melhor condição financeira tem curiosidade de provar e compra os produtos. Quando vou vender para uma empresa, acham o produto diferente, inovador, que agrega”, relata.

 E ela faz questão de falar sobre sustentabilidade nos eventos que realiza, independentemente de quem seja o público. O recado é sempre para que a sustentabilidade seja praticada como um todo. “Pequenas ações fazem diferença enorme em nossas vidas, como pessoas, no entorno, para as pessoas que estão ao nosso redor, para nossos familiares, amigos, vizinhos. É um ato transformador, de mudança mesmo, cada pouquinho que a gente faz causa uma mudança na vida de várias pessoas que, muitas vezes, a gente não tem ideia”.

Arte: A Nossa Pegada

PROJETO

 O nome Angu das Artes, dado por uma amiga, foi escolhido por ser uma comida regional simples, que com dois ingredientes mata a fome de pessoas que têm fome. Mas a origem do projeto contemplava outros tipos de “alimento”. Na época, em 2017, o projeto abrangia arte, cultura, educação e sustentabilidade, e contava com pessoas voluntárias que davam aulas diversas.

Tudo começou quando Angélica iniciou um trabalho de conscientização ambiental incentivando a prática da coleta seletiva onde morava. Isso depois que pediu demissão, por motivos de saúde, após mais de 20 anos trabalhando em gráfica como designer. “Começou a chegar na minha porta e na de amigas muitos produtos de coleta seletiva, mais precisamente plástico, vidro e latinha, e como uma das amigas do projeto era artesã, ela começou a dar aulas de artesanato com materiais recicláveis”, contou Angélica, que passou a servir comidas que fazia em casa e começou a se aperfeiçoar. Com seis meses, conseguiram alugar um espaço físico.

No ano seguinte, o Angu foi incubado no Porto Social, que é uma incubadora de projetos sociais e ajudou na estruturação do projeto enquanto negócio de impacto social. O espaço físico, no entanto, deixou de existir, por não conseguirem pagar o aluguel. Mas as atividades de culinária sustentável continuaram de forma itinerante, uma vez que gastronomia sempre foi a paixão de Angélica, cuja vida tomou rumo totalmente diferente.

Em 2019, começou a atuar paralelamente, a convite, no programa Mais Vida nos Morros, da Prefeitura do Recife, que busca requalificar comunidades da cidade. É de onde vem a atual fonte de renda e através do qual consegue levar a expertise dela a mais pessoas de localidades diferentes.

Durante a pandemia, ela chegou a realizar uma consultoria para uma ONG que fornecia 100 refeições diárias a pessoas em situação de rua e de comunidades carentes. Neste segundo semestre de 2020, Angélica iniciou o serviço de entrega semanal de encomendas de alguns produtos selecionados, como cuca de banana, salgadinho de casca de legumes, biscoito de bagaço de coco, antepasto de casca de banana, requeijão caseiro de inhame e torta de talos.

Os planos, para assim que a pandemia deixar, é abrir um pequeno espaço gastronômico em casa, como um restaurante-escola, no qual ministrará cursos e oficinas presenciais durante a semana, e oferecerá degustação de comidas nos fins de semana. Para 2021, já existem cerca de 100 receitas catalogadas a espera de uma publicação em forma de livro. Quem sabe não realiza outro sonho, também, que é o de participar do programa de Ana Maria Braga.

MÃO NA MASSA

Vamos aprender uma das receitas que Angélica ensina e que é carro-chefe no Angu das Artes? Trata-se do biscoito de bagaço de coco. Sim, o bagaço é aquele “restinho” que sobra quando o leite do coco é extraído. A receita é super simples, conforme você pode ver abaixo, e o passo-a-passo, com direito a várias dicas e informações extras durante o preparo, você confere neste vídeo exclusivo que gravamos com Angélica.

RECEITA: 

Bagaço de um coco
200g de amido de milho
5 colheres de farinha de trigo
5 colheres de sopa de açúcar
200g de margarina ou óleo de coco

MODO DE PREPARO: Usar um garfo para dar uma amassadinha bem de leve  com o garfo, para moldar, ou usar o formato que quiser.Pode colocar um quadradinho de goiabada em cima, se quiser.

TEMPO DE ASSAR: 20 – 25 minutos

RENDIMENTO: 5 potes de 350g

DICA: ligue o forno por no mínimo dez minutos antes, pois muitas receitas só tem o efeito desejado se o alimento for colocado no forno já pré-aquecido.

Saiba mais no Episódio #5 do Podcast Sustenta Mundo

Neste quinto episódio do Sustenta Mundo conversamos com a empreendedora social Angélica Nobre, fundadora do negócio de impacto social Angu das Artes, que trabalha o reaproveitamento de alimentos normalmente descartados. Angélica conta um pouco da trajetória dela e fala sobre sustentabilidade, gastronomia social e empreendedorismo, tratando o tema por um perspectiva que vai do desperdício ao sabor.

Aline Vieira Costa
Aline Vieira Costa

Sou Mãe, Mulher, Vegana, Jornalista, Ecofeminista, aprendiz de bicho-grilo e qualquer rótulo mais cujas práticas nos ajudem a construir uma sociedade justa, que contribua agora com o futuro do planeta e com o perfeito equilíbrio da Terra. Acredito piamente que o que move cada um de nós é capaz de mover também o mundo. E que temos, sim, o poder de fazer a diferença através do cultivo de hábitos sustentáveis. A Nossa Pegada depende de nós, está em nossas mãos.

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