Moradores vendem lixo reciclável na favela de Vila Prudente (SP)

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Enquanto o Brasil ainda enterra alguns milhares de reais no lixo, moradores da favela mais antiga de São Paulo, a Vila Prudente, experimentam transformar resíduos em dinheiro. Só de janeiro de 2019 a janeiro de 2020, quase 150 famílias arrecadaram R$ 5,1 mil, no total, através das 10,2 mil toneladas de resíduos recicláveis entregues ao projeto Recircular, criado pela Cooperativa Recifavela. Imagine que em 2018, 79 milhões de toneladas de resíduos sólidos, entre orgânicos, rejeitos e recicláveis, foram gerados no Brasil inteiro e 8% deles nem coletado foi, de acordo com dados do Panorama dos Resíduos Sólidos, da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). Agora imagine o quanto de renda poderia gerar os 30% de resíduos com potencial de reciclagem que são gerados no país, dos quais apenas 3% é reaproveitado.

Estamos falando de materiais como papel, vidro, plástico e latas, que têm valor de mercado, caso sejam reaproveitados na fabricação de novos produtos. E a economia gerada beneficia toda uma cadeia que envolve indústria, natureza e também a sociedade. Nesse projeto, em específico, moradores e catadores avulsos levam os recicláveis e recebem o pagamento em crédito no cartão Visa, que pode ser usado em qualquer lugar. É só abrir o aplicativo no celular e fazer o cadastro que já tem a conta aberta. Não cobra nada e a pessoa pode guardar ou transferir o dinheiro sem pagar as mesmas taxas dos bancos tradicionais. Essa solução foi possível graças a uma parceria com a plataforma BCP e com a Artemísia e FGV, onde a iniciativa foi acelerada.

Maquete com informações sobre tipos de material reciclável, incluindo preço por kg. Foto: arquivo pessoal
Maquete com informações sobre tipos de material reciclável, incluindo preço por kg. Foto: arquivo pessoal

Das quase 150 famílias atendidas atualmente pelo projeto, apenas 15 optaram por se cadastrar, algumas delas, para guardar dinheiro para o filho. A média de valor arrecadado por família é de cerca de R$ 35, por mês. “Muitos querem fazer doação para igreja, instituições, time de futebol, ou projeto específico, explica o idealizador do Recircular e presidente da Cooperativa Recifavela, Cristiano Cardoso, sobre o motivo do não-cadastramento. “Daí eu vejo a parte mais rica da favela, essa vontade de ajudar o próximo, que é uma coisa que às vezes nós perdemos no tempo”, ressalta.

Segundo Cristiano, 135 toneladas de resíduos recicláveis saem da Vila Prudente. “Se nós conseguíssemos pegar todos os resíduos da favela e levar para cooperativa, nós não precisaríamos mais de nenhum caminhão da prefeitura. Só a favela colocaria a cooperativa automaticamente sustentável”. A iniciativa conseguiu, há pouco, uma doação de R$ 25 mil da Crawford, na Inglaterra, para atender mais 137 famílias, no entanto, Cristiano assumiu o compromisso de abraçar 250. “Estamos falando de uma favela de 1.800 famílias, das quais já atendemos 137 e vamos atrás de mais 250 para trazer o resíduo aqui para dentro”.

Aprenda aqui como separar os resíduos recicláveis dentro de casa:

NOVO PRÉDIO – E é para ampliar a capacidade do espaço que o Recircular está construindo, com esse recurso, um prédio de 12m² de contêiner, com quatro andares, cada um com o nome de alguém importante para a cooperativa. O primeiro é por onde a pessoa vai entrar, pesar, ver, entender o que é e o que não é reciclável e vender o resíduo. O segundo é o da linha de produção, onde o resíduo será separado para depois seguir para a cooperativa. O terceiro, destinado às salas de network, é a porta para se pensar em mudanças. “Se não vai ser só “reciclo, me paga, reciclo, me paga” e isso não muda. O que muda é a pessoa pensar “não, não, não, Recircular, vamos parar e vamos fazer o seguinte, eu não quero isso”, então vamos pensar juntos, quanto mais pessoas pensando paro o mesmo objetivo, sempre é a melhor solução, mas tem que ter uma faísca, sabe, uma pessoa para provocar”. Esse terceiro andar, tão importante quanto o primeiro, será voltado para business, para trazer as startups para dentro da favela. “Nós temos restaurante, adega, bar, açougue, mercado, mercadinho, cabeleireira, manicure, podóloga, massagista, e pouca gente sabe que aqui tem, então queremos conversar com essa galera para trazer tecnologia aqui para dentro e ajudar a divulgar esses negócios”. Segundo ele, o linguajar que o povo periférico sabe falar muito é de dinheiro “É universal, isso. Onde eu ganho e onde eu perco? Se você não reciclar, você perde. Se você reciclar, você ganha. Você ganha com impacto social, ambiental, na visibilidade da favela, em como você vai ser falado e seu negócio vai ser bem visto”, relata. O último andar será um mirante com vista panorâmica para arejar a mente.

EDUCAÇÃO SOCIOAMBIENTAL – Cristiano Cardoso percebeu na lida diária que em meio a um espaço no qual 40% da população está desempregada e a maioria das mães está separada e precisando de renda para manter a casa, não adiantava só falar de reciclagem. A equipe dele fez uma pesquisa para saber que resíduos eram gerados em uma casa, barraco, viela, rua, e começou a escutar das pessoas “por que vocês estão perguntando isso? Isso é reciclável, isso não é?”. “Gerou mais impacto falar para eles que estávamos criando um modelo de negócios que dizer “me dá seu resíduo que vou levar para cooperativa”. O primeiro trabalho foi feito com a Igreja Católica São José Operário, após conversar com o Padre Assis, com quem Cristiano chegou a viajar para a Alemanha, em 2005, em um projeto social que mudou o rumo da vida dele e fez ele desejar transformar o lugar onde vivia (escutem o episódio #4 do podcast Sustenta Mundo). Uma parte pequena começou a separar reciclagem, outra queria doar, outra vender e outra não se interessava. “Pensamos em uma maneira de fazer economia e a galera começou a se perguntar ‘isso gera quanto?’, a parte mais educacional. ‘Quanto que vale esse caderno se eu reciclar?’, ‘E se eu tirar a capa?’”.

INCLUSÃO SOCIAL – O Recircular surgiu na mesma época da Recifavela, nascida debaixo de um dos viadutos mais antigos de SP, que liga a parte mais periférica ao centro, do lado do Rio Tamanduateí. O objetivo era trabalhar com cooperativismo inclusivo, que recicla não apenas materiais, mas também vidas. “A ideia é trazer todos os vulneráveis para dentro, todas as pessoas que não se veem dentro dessa sociedade que acaba excluindo o povo periférico, favelado”, explica Cristiano, que além de presidente, se diz catador de recicláveis favelado cooperado dentro do espaço. Com a pandemia, a cooperativa parou de funcionar por tempo indeterminado e, com isso, o Recircular parou de receber resíduos, no entanto, continua pagando a catadores avulsos para eles não serem explorados. “A gente paga abaixo de 30% da fábrica, para manter o projeto, e o resto ele recebe. Hoje ele ganha mais de 70% em cima dele e ele faz todo o trabalho. Essa é a maneira da gente de agregar os catadores avulsos com os moradores”. As faturas, no entanto, continua a chegar. São contas fixas de três filiais, telefone, prestação de carro, caminhão e kombi, seguro, estacionamento, sistema, advogado, contador, tributação, custo que chega a R$ 29 mil, ela aberta, e R$ 16 mil fechada, segundo ele. “A prefeitura está bancando R$ 1,2 mil para cada um dos 40 cooperados mas a estrutura está sendo bancada por vaquinha online”, completa.

Saiba mais no Episódio #3 do Podcast Sustenta Mundo

Neste terceiro episódio do Podcast Sustenta Mundo, que integra o Especial Sustentabilidade na Favela, conhecemos o projeto Recircular, que trabalha a redução de impacto socioambiental e a geração de renda através da compra de resíduos da população local. Conversamos com o catador de recicláveis Cristiano Cardoso, que é o idealizador do projeto e fundador da cooperativa Recifavela, localizado na Vila Prudente, favela mais antiga da cidade de São Paulo. Ele fala sobre a trajetória dele, sobre o impacto do trabalho que realiza e sobre como iniciativas assim podem modificar a realidade.
Aline Vieira Costa
Aline Vieira Costa

Sou Mãe, Mulher, Vegana, Jornalista, Ecofeminista, aprendiz de bicho-grilo e qualquer rótulo mais cujas práticas nos ajudem a construir uma sociedade justa, que contribua agora com o futuro do planeta e com o perfeito equilíbrio da Terra. Acredito piamente que o que move cada um de nós é capaz de mover também o mundo. E que temos, sim, o poder de fazer a diferença através do cultivo de hábitos sustentáveis. A Nossa Pegada depende de nós, está em nossas mãos.

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