Jardineiro constrói hortas na Favela da Rocinha (RJ)

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Já imaginou como seria se a cada refeição pudéssemos ir em nosso quintal ou varanda para colhermos ingredientes a serem usados naquele prato? Prática comum no meio rural, tem sido cada vez mais crescente também nos centros urbanos, onde tem crescido a busca por alimentos orgânicos e pelo cultivo em casa. Na periferia, não é diferente. A prática é muito relacionada a um desenvolvimento social sustentável e à redução de impacto ambiental. E é esse o propósito do Horta na Favela, situado na maior favela do Brasil, a Rocinha, no Rio de Janeiro. 

O projeto realiza um trabalho educacional que conecta crianças, jovens e adultos com a natureza. Já fez hortas em casas e prédios de moradores locais, além de parcerias com escolas e igrejas. “Nosso objetivo é trazer pessoas para aprenderem como plantar, o que e onde”, conta o fundador Flávio Gomes, que é jardineiro e eletricista, de formação. “Temos muitas lajes. A ideia é: respeitamos o que o morador tem, a cultura do churrasquinho na laje. Alguns não têm laje, ou moram de aluguel, mas tem parede. A ideia é levar a horta vertical para ele”, complementa.

Neste segundo semestre de 2020, o projeto conseguiu, com ajuda de doação, alugar um espaço, onde vai conduzir algumas das atividades, como o Reciclando na Laje, com trabalho de recreação e conscientização ambiental infantil; a Roda do Saber, onde a expertise dos mais velhos é valorizada através de encontros de conversa e oficinas; e o Papo no Miolo, com capacitações para jovens em temas variados, ministradacomo beleza e jardinagem, cujo preço a ser pago é ter uma horta em casa – se não tiver casa, faz a doação de uma horta para alguém.

A primeira horta do projeto foi feita em uma residência, em 2017, e já rendeu frutos: um pequeno jardim comunitário dentro de uma geladeira que havia sido descartada em um beco. A ideia surgiu quando vizinhos da moradora começaram a pedir temperos e ela nem sempre ela estava em casa. Agora, todo mundo pode passar lá, pegar e cuidar. “Essa semente já começou a reproduzir, está passando de um para o outro. O morador está começando a entender a importância de se viver uma sociedade mais justa, com mais igualdade para todos”, comenta Flávio. “Essa questão do alimento, de poder ter em casa e saber que você plantou, traz diversos benefícios, e o morador vê isso”.

Além de botar o alimento na mesa, o projeto também colabora para fazer nascer ali uma economia solidária entre os moradores. “Se ele tem uma área tal e aprende a plantar uma alface ali, e o vizinho produz o tomate, e outro o pepino, (a ideia é fazer com que) cada um produza alguma coisa e no final eles consigam dividir produções, criem uma cesta orgânica para cada um e o excedente possam vender para outros lugares”, explica Flávio, dizendo que já recebeu, inclusive, proposta de um grupo de mães de São Conrado, uma área nobre do Rio, para comprar o produto orgânico dos moradores.

Espaço da primeira horta comunitária. Foto: arquivo pessoal

O projeto acaba resgatando a própria identidade histórica da Rocinha que, na década de 30, era um grande fornecedor de hortaliças para bairros próximos. “Lembro que minha casa produzia muito inhame. Pegavam o inhame chinês, por exemplo, uma parte a gente ficava para comer, outra vendiam ou trocavam na feiras próximas. As pessoas perguntavam ‘esse produto tão bom é da onde?’, ‘é lá da minha rocinha’, foi daí que veio o nome”, conta Flávio. Com o tempo, a cultura do roçar foi diminuindo. “Por conta primeiro do avanço desenfreado, todo mundo foi perdendo o pedacinho de chão, todo mundo foi construindo e os espaços meio que acabaram. Agora dá, mas na vertical, porque na horizontal o espaço acabou”.

Segundo Flávio, no meio da favela ainda tem alguns pontos onde é possível fazer horta comunitária. “Começamos agora em setembro a fazer uma horta em um espaço bem legal, grande, protegendo de deslizamento com plantio, e ainda criando um espaço ecológico para os moradores. É nosso primeiro trabalho grande na favela”, contou. Nesse espaço a população vai contar com banheiro seco, sistema de compostagem, agrofloresta e uma horta com pegada ecológica.

 

Horta na Favela realiza o trabalho Reciclando na Laje com crianças da comunidade. Foto: arquivo pessoal

SUSTENTABILIDADE EM COMUNIDADE – Quando chegou com a proposta de sustentabilidade na Rocinha, Flávio diz ter sido muito bem aceito, acredita ele que pela simplicidade de chegar, estar junto e misturado, sentar, plantar, pegar crianças, fazer oficina de jardinagem. Aos poucos, foi vendo todo mundo envolvido. “Talvez, também, por falar a língua do morador. Tem gente que chega na comunidade e usa palavras que não condizem com a realidade da localidade. Se a gente fala a língua do morador, e ele está vendo que aquilo é bom, ele vai confiar e abraçar”. 

Flávio (último à direita), criança, em projeto social (1983). Foto: arquivo pessoal

Flávio também menciona o tempo sem o amparo do poder público. “Ninguém nunca foi ali falar com ele sobre o descarte adequado do resíduo dele, (dizendo) ‘o seu resíduo tem que ficar em tal ponto porque vai passar o caminhão de lixo para pegar’. Ele não teve acesso a isso, então ele não tem culpa de viver às vezes de forma assim ‘pego meu lixo e jogo aqui’. Flávio não generaliza, uma vez que muita gente sabe o que é certo ou errado, mas defende que as universidade e até mesmo as igrejas possam trazer pessoas da comunidade e dar capacitações. Ele mesmo é fruto de ações sociais assim. 

Ter contato com projeto social, quando criança, dentro da Rocinha, fez ele ver que o que muitas crianças precisam é de oportunidade, alguém que pegue na mão e mostre a elas que existe um mundo que é diferente. “Quando a sociedade dá as mãos, pega essas crianças e apresenta a elas outras formas de vida, com certeza ela vai crescer e vai querer replicar essa questão também”, comenta ele, que é exemplo disso. 

Já adulto, Flávio foi convidado a participar do Projeto de Extensão Muda (Mutirão de Agroeocologia), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e lá ele percebeu que foi um dos privilegiados da comunidade a poder estar lá. “A ideia do MUDA é justamente pegar pessoas de comunidades, que não tiveram oportunidade de estarem em espaços acadêmicos, para levar essa ideia. E eu abracei com muito afinco porque sabia que poderia mudar a realidade da minha comunidade”, relata. 

Ouça essa história em detalhes no Episódio #4 do Podcast Sustenta Mundo

Neste quarto episódio do Podcast Sustenta Mundo, que integra o Especial Sustentabilidade na Favela, conhecemos o projeto Horta na favela da Rocinha, que trabalha a educação ambiental e a redução de impacto socioambiental através do plantio de hortas. Conversamos com o jardineiro Flávio Gomes, que é o idealizador do projeto, que nos conta a trajetória percorrida por ele, as primeiras ações e frutos do projeto e as inspirações que o fazem querer resgatar a cultura da “roça” naquele lugar.

HORTA VERTICAL COM RESÍDUOS – Quer aprender como plantar na parede utilizando materiais recicláveis e até mesmo rejeitos? Não precisa gastar e ainda dá uma destinação nobre ao que é considerado “lixo”. Flávio mostra o passo-a-passo aqui neste vídeo. Confere e compartilha.

Aline Vieira Costa
Aline Vieira Costa

Sou Mãe, Mulher, Vegana, Jornalista, Ecofeminista, aprendiz de bicho-grilo e qualquer rótulo mais cujas práticas nos ajudem a construir uma sociedade justa, que contribua agora com o futuro do planeta e com o perfeito equilíbrio da Terra. Acredito piamente que o que move cada um de nós é capaz de mover também o mundo. E que temos, sim, o poder de fazer a diferença através do cultivo de hábitos sustentáveis. A Nossa Pegada depende de nós, está em nossas mãos.

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