Filme: La Belle Verte (A Turista Espacial)

Tempo de Leitura: 3 minutos

La Belle Verte (1996), conhecido em português como A Turista Espacial, narra a saga de uma habitante de um planeta evoluído numa viagem à Terra. Excursões do tipo são feitas de tempos em tempos, com o objetivo de observar e ajudar na evolução de outros planetas. Uma utopia? Certamente uma perspectiva bastante semelhante à da doutrina espírita, nascida na França, mesmo país da obra, escrita e dirigida por Coline Serreau, também compositora e protagonista (Mila) da ficção. Repleta de referências que brincam com o imaginário e o real, a produção não economiza humor de qualidade nas críticas sociais ao estilo de vida ecocida para fazer um questionamento bastante atual: o que estamos fazendo?

O filme inicia com um mergulho no elemento água, elemento que permeia toda a obra, possivelmente pelas características que possui, pelos diversos sentidos que representa, ou pelos caminhos que sempre encontra. Transparente como o olhar, como o céu, como a alma, como o ar, como o mar. É através dessa plasticidade que Coline Serreau mostra uma terra que existe, que existiu, ou que existirá. De um povo que vive junto, partilha, comemora, de forma simples, natural, coletiva. E com frutas, chapéus de pano, natureza, brincadeira, felicidade: a “reunião do planeta” está aberta. Feliz Ano Novo! É durante essa festa meio feira, com oferenda de alimentos, profissionais e serviços, que percebemos elementos sociais antigos que voltam a ser atuais: a ideia de economia colaborativa.

Os habitantes daquele lugar evoluído, no entanto, e talvez não tanto, não faziam uma visita à Terra há 200 anos. A última ida havia sido na época de Napoleão e a última volta, na Revolução Industrial. Destruição da natureza, matança, massacre das mulheres, produção em massa de objetos inúteis. Chefes que se acham superiores a tudo. Ninguém queria ir lá. Mas algo precisava ser feito para ajudar e foi durante a “reunião do planeta” que Mila se voluntariou, a única, em meio a um silencio ensurdecedor.

Mila aterrisou em uma Paris contemporânea dentro de um Objeto Voador Não Identificado (OVNI) ovóide transportado por telepatia. Imaginem a cena. Em meio à fumaça dos carros e aos cocôs de cachorro na calçada, Mila começou a observar o modo de vida dos terráqueos e não demorou a iniciar as práticas de “desconexão” para uma nova consciência. Todos que a viam se espantavam, vide trajes incomuns que portava. Por sua vez, ela se espantava com todos, pois conseguia ver além das roupas e da pele: as doenças, as aflições.

Impossível passar batido pelas sugestões de hábitos simples e poderosos, como estar em contato com bebês, uma forma de se recarregar de energia, de se alimentar. Interessante notar também, ao longo da trama, a inquietude de Mila relativa a padrões sociais e comportamentais ao se assustar, por exemplo, com uma “exposição de cadáveres”, como se referiu aos animais mortos à venda em um açougue.

Inquietude também vista diante de hábitos comuns como, por exemplo, o uso do batom:

– Para que serve?
– Para ficar bonita. Para agradar. Para ficar sexy. Para ser amada.
– Certo, é um tipo de remédio para que todos a amem?
– Não, mas…
– Se não colocar, ninguém a amará?
– Sim, mas… É difícil de explicar.
– O que foi que eu disse? Deixei-lhe triste?
– Não é nada.
– E isto?
– São fotos… O Max, meus pais, as crianças.
– São os que ama? Por que não usam batom?

Provocações polêmicas, em tempos de exaltação à “beleza” maquiada, mas sem tom constrangedor, a quem assiste. Afinal, o filme não deixa de ser uma comédia, por sinal, oriundo da mesma fonte criativa que pariu os cômicos Três Solteirões e um Bebê (1985), e Três Solteirões e um Bebê 18 Anos Depois (18 ans après, 2003)”. Coline também é responsável por outros trabalhos notáveis, como Pense Local, Aja Rural (Solutions Locales pour un Desordre Global, 2010), cujo título é autoexplicativo, com reflexões e alternativas de camponeses, economistas e filósofos para lidar com o desgaste da terra.

Feminismo, espiritualidade, ecologia, sustentabilidade e ativismo são apenas alguns dos temas que apontam formas de viver como ato político, humano e transcendental – e que lembram o utópico livro A Terra das Mulheres (Herland, 1915), da feminista Charlotte Perkins, sobre uma sociedade 100% feminina que vivia livre de conflitos e dominação há séculos. Um filme para refletir, rir e repetir. Daqueles que a cada dose o expectador liga novos pontos, conecta mensagens e internaliza novos recados. Principalmente quando reassiste com algum intervalo de tempo. Não, não tem no Netflix, mas basta uma rápida busca no Youtube para descobrir alguns sites que oferecem, sem custo, o vídeo, com ou sem legendas.

Título: La Belle Verte (original)
Direção: Coline Serreau
Roteiro: Coline Serreau
Produção: Alain Sarde
Duração: 99 minutos
Gênero: Comédia, Drama, Ficção Científica
País: França
Ano: 1996

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Aline Vieira Costa
Aline Vieira Costa

Sou Mãe, Mulher, Vegana, Jornalista, Ecofeminista, aprendiz de bicho-grilo e qualquer rótulo mais cujas práticas nos ajudem a construir uma sociedade justa, que contribua agora com o futuro do planeta e com o perfeito equilíbrio da Terra. Acredito piamente que o que move cada um de nós é capaz de mover também o mundo. E que temos, sim, o poder de fazer a diferença através do cultivo de hábitos sustentáveis. A Nossa Pegada depende de nós, está em nossas mãos.

1 Comentário

  1. Mariana Damico

    Eu já vi esse filme há anos, ainda adolescente. Depois nunca mais o achei. Queria muito ver de novo? Vc sabe alguma informação sobre como ver ele? Obrigada pelo conteúdo!

    Responder

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